Estrangeiro está mais vulnerável ao sofrimento

Estudo desenvolvido por alunos de Psicologia mostra que a luta pela sobrevivência acentua sentimento de tristeza


Estudo desenvolvido por estudantes do curso de Psicologia do Unisal (Centro Universitário Salesiano) de Americana aponta que os imigrantes haitianos que vivem nas cidades de Americana, Nova Odessa e Santa Bárbara d’Oeste enfrentam vulnerabilidade emocional e podem desenvolver problemas psicológicos, entre eles, a chamada “Síndrome de Ulisses”, comum entre imigrantes. O nome tem relação com o personagem da mitologia grega Ulisses, que vive a sua saga de quase duas décadas de volta a Ítaca, na Grécia, após lutar na Guerra de Troia, enfrentando uma grande tristeza.

Guardadas as proporções, a luta pela sobrevivência dos imigrantes acaba provocando sentimento parecido. De acordo com um dos estudantes que desenvolveu a pesquisa, Davi Liepkan – que também é pastor de uma igreja em Nova Odessa que faz um trabalho de apoio aos haitianos na cidade –, diversos fatores apontam para essa vulnerabilidade.

Foto: Guilherme Rocha Lima / Divulgação
Voluntários dão aulas de português em sala do Centro Salesiano

“A gente fez pesquisa de campo com os haitianos da região e identificou que eles são mais vulneráveis ao stress e ao esgotamento nervoso. São vulneráveis a problemas psicológicos, porque enfrentam a distância da família, a apreensão em relação à situação do Haiti e muitas vezes moram em casas com 15 pessoas que nem conheciam”, explicou.

Discriminação

Esses problemas também se somam, muitas vezes, à discriminação ainda presente em determinados momentos. Em 2015, por exemplo, Nova Odessa teve episódio de xenofobia quando o muro do cemitério da cidade foi pichado com os dizeres “Back to Haiti”, que em português quer dizer “voltem ao Haiti”.

Na pesquisa, todos os entrevistados relataram sintomas de tristeza/depressão no passado ou atualmente. A maioria relatou alterações de humor, solidão e alterações no sono e apetite.

Foto: Editoria de Arte / O Liberal
Quadro de imigrantes formais na RPT

Eles também foram questionados sobre o que faziam para tentar lidar com isso, e todos responderam que buscam ajuda em igrejas e com pastores.

Essa religiosidade dos haitianos está presente nas cidades da região. Há cultos voltados aos imigrantes em igrejas em Americana, Santa Bárbara d’Oeste e Nova Odessa. Além disso, há serviços de apoio aos imigrantes na região, como o da Unisal, de Americana, que oferece aos sábados aulas de português e cultura brasileira por meio da ajuda de alunos voluntários. O trabalho também foi feito na Unimep de Santa Bárbara d’Oeste.

Haitianos passaram por aulas

Em 2015, o campus Santa Bárbara da Unimep (Universidade Metodista de Piracicaba), com apoio das igrejas Batista e Presbiteriana do município, foi palco da formatura no curso de língua portuguesa para um primeiro grupo de haitianos.

A classe recebeu instruções de dois alunos voluntários da própria instituição, que por nove meses foram responsáveis não só por ensinar a gramática portuguesa, como também apresentar costumes, hábitos e a cultura.

Sumaré é ‘segunda casa’ dos japoneses

Não se sabe por quanto tempo – já que a montadora Honda anunciou a mudança de parte da produção para Itirapina –, mas em 2016, era grande a representatividade dos imigrantes japoneses com trabalhos formais em Sumaré: 76. Eles só perdiam em número para os haitianos, que são maioria em toda a RPT. Na cidade, eram 148.

Os números constam no Atlas Temático Observatório das Migrações, desenvolvido pelo Nepo (Núcleo de Estudos da População) da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas).

De acordo com uma das pesquisadoras do material, Rosana Baeninger, esse tipo de migração verificada em Sumaré é chamada pela literatura como “migração qualificada”, mas ela prefere o termo “trabalhadores do conhecimento”. “São imigrantes com altos cargos em empresas, como a Honda, gerentes, engenheiros, por exemplo”, explicou.

Na contramão da história, a presença dos imigrantes dos Estados Unidos com trabalhos formais em Americana e Santa Bárbara d’Oeste – cuja história é marcada pelas colônias dos americanos no passado – hoje é mínima. Em 2016, conforme o atlas, eram apenas 6 trabalhadores, somente em Americana. Hortolândia, por exemplo, tinha mais: 10 vivendo no município com trabalho formal.

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