‘A Anvisa não sabe o que fazer com a gente’, afirma especialista

Fabricação de mosquito Aedes aegypti ‘do bem’, em Campinas, enfrenta desafio regulatório na Agência de Vigilância Sanitária


Dentro de um condomínio às margens da Rodovia Anhangüera, no limite entre Sumaré e Campinas, a entomologista Cecília Kosmann tem entre suas responsabilidades ficar de olho na fabricação de um produto bastante peculiar: mosquitos. A linha de produção da Oxitec, um laboratório de origem inglesa que modifica o Aedes aegypti geneticamente, tem sido vista como aposta para reduzir os casos de dengue no País.

Em um bairro de Piracicaba, primeira área a abraçar o projeto, chamado de Aedes do Bem, a incidência de mosquitos reduziu 82%. No local, foram lançados mosquitos machos para que eles se reproduzissem com fêmeas – responsáveis pelas picadas infecciosas – que geraram filhotes que morrem antes de chegarem à fase adulta.

“A partir do momento que você reduz a população de mosquito, você também vai ter uma redução na circulação de vírus e, consequentemente, no número de doenças”, explica Cecília. Em poucas palavras, trata-se de um beco genealógico.

Liberal Motors – BC
Padovani Especial Pet – BC.1

Apesar da inovação ser vista com bons olhos mundo afora – já teve a aprovação da agência que regula materiais biológicos nos Estados Unidos –, por aqui, ela ainda flutua em um limbo regulatório da alçada da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). “É o primeiro animal transgênico a ser liberado no mundo. Ninguém sabe o que fazer com isso”, espanta-se a entomologista, que falou sobre o projeto ao jornal O LIBERAL.

Foto: Marcelo Rocha / O Liberal
Especialista afirma que expansão de projeto que reduziu mosquitos da dengue em Piracicaba depende de prefeituras

LIBERAL: Qual a diferença entre o mosquito tradicional e o mosquito da Oxitec?
Cecília Kosmann: Ele tem, na verdade, duas diferenças genéticas. Foram inseridos dois genes no mosquito. O primeiro gene é montado em laboratório, que faz com que o mosquito produza uma proteína em excesso. Este excesso de proteína faz com que a célula não funcione da maneira adequada e acabe morrendo. Isso faz com que o mosquito transgênico morra no campo. O segundo gene é um marcador florescente. Este veio de um coral e faz com que a larva e a pupa floresçam numa luz específica no laboratório e assim nós podemos fazer o monitoramento.

LIBERAL: Há a possibilidade de que essa mudança genética sofra uma regressão?
Cecília: Essa transgenia foi feita em 2002, em Oxford. A cada quatro gerações nós fazemos testes de genotipagem para ver como anda esse transgene, para ver se ele está estável, se sofreu uma mutação. E desde 2002 ele está estável, o que nos leva a crer que não aconteceria nada disso.
A população pode se perguntar: ‘Por que não há esse projeto na minha cidade?’. O que falta?
Cecília Isto depende de acordos com a prefeitura. Estamos terminando a construção da fábrica em Piracicaba, que vai nos deixar atender uma população muito maior. Serão produzidos até 60 milhões de machos por semana, uma capacidade de cerca de 30 vezes maior do que a gente tem hoje, o que nos permitiria começar projetos em outras áreas. Mas isso tudo depende de interesse da prefeitura querer implantar esta tecnologia.

LIBERAL: Na região, alguma prefeitura se interessou?
Cecília: Nós já conversamos basicamente com quase todas as prefeituras da região.

LIBERAL: E qual foi a resposta delas?
Cecília: Tem a questão dos orçamentos, lidar com órgãos públicos. Muitas vezes, só vão se preocupar quando têm epidemia. São coisas de poder público que às vezes acabam dificultando a implantação do projeto.

LIBERAL: Sem a tecnologia, como você avalia o combate ao mosquito feito pelo poder público?
Cecília: Muitas cidades fazem um trabalho muito bom, como Piracicaba. Mas a eliminação de criadouros, que é o principal método hoje, precisa do engajamento total da população. É complicado. Como você vai pedir para um senhor de idade olhar sua calha toda semana? A gente tem os inseticidas, que têm uma certa eficácia em relação ao inseto adulto, mas não atingem as fases larvais. Nenhuma ferramenta sozinha vai conseguir vencer esta guerra ao mosquito.

LIBERAL: Neste ano, nós tivemos uma queda geral em casos de dengue, como em Americana e Sumaré, que tiveram problemas recentemente. Ainda estamos suscetíveis a epidemias na região?
Cecília: Pode acontecer  já no próximo Verão. É difícil a epidemia vir duas vezes seguidas no mesmo lugar. É um trabalho constante que se tem que fazer para prevenir.

LIBERAL: A Comissão Técnica Nacional de Biossegurança já liberou a linhagem de mosquitos transgênicos da Oxitec. O que falta para a liberação do registro na Anvisa?
Cecília: A Anvisa não sabe o que fazer conosco. Não somos remédio, não somos vacina, não somos inseticida. Somos algo novo. É o primeiro animal transgênico a ser liberado no mundo. Ninguém sabe o que fazer com isso. Eles também têm que se adequar. Acho que nenhuma agência regulatória no mundo sabe lidar com insetos transgênicos. Vai levar, no mínimo, de três a cinco anos para ser aprovado.

LIBERAL: Foi difícil convencer a população de que liberar um mosquito não seria um problema?
Cecília: Quando a gente chega em uma região nova, todo mundo está querendo acabar com o mosquito e a gente está indo combater mosquito liberando mais mosquitos. É uma coisa diferente. A população tem que ser educada. A parte de engajamento público, que nós fazemos antes e durante o projeto, é de extrema importância. No início, as pessoas ficam “meio assim”, mas em pouco tempo elas já apoiam.