Sindicato aponta déficit de 76% de funcionários da polícia

Levantamento de entidade diz que há 548 cargos disponíveis na Seccional de Americana, mas somente 127 estão preenchidos atualmente


Um levantamento feito pelo Sindesp (Sindicato dos Delegados do Estado de São Paulo) aponta que a Delegacia Seccional de Americana tem um déficit de 76% no quadro de servidores. São 548 cargos disponíveis para apenas 127 preenchidos, uma carência de 421 profissionais.

A maior defasagem é na carreira de investigador, onde só 49 das 198 vagas abertas estão ocupadas. O governo do Estado rebate os números e garante que há 150 servidores a mais do que a pesquisa da entidade.

Além de Americana, a Seccional abrange Santa Bárbara d’Oeste, Nova Odessa, Sumaré, Hortolândia, Cosmópolis, Engenheiro Coelho, Monte Mor e Artur Nogueira. Juntos, os municípios têm oito delegacias que funcionam como plantão, 14 DPs (Distritos Policiais), quatro DDMs (Delegacias de Defesa da Mulher), uma DIG (Delegacia de Investigações Gerais) e uma Dise (Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes).

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Foto: Arquivo / O Liberal
Delegada percorre 70 delegacias seccionais para fazer um raio-x do quadro de funcionários; segundo ela, 40% das cidades do Estado não têm delegado

Em Americana, o 1º, 2º e 3º DP e a delegacia de plantão estão concentrados em um único prédio, a CPJ (Central de Polícia Judiciária).

“A impunidade prospera porque a Polícia Civil está sucateada e a principal vítima é a sociedade, que sofre sem poder contar com uma política investigativa efetiva, com condições de trabalho”, declarou a delegada Raquel Kobashi Gallinati, presidente do Sindesp.

Visita

Raquel está visitando as 70 delegacias seccionais de São Paulo para traçar uma radiografia exata do problema que ela chama de “sucateamento da Polícia Civil”. As visitas começaram em 19 de dezembro do ano passado e devem ser concluídas nesta segunda-feira, dia 20 de março, em Sorocaba.

“A Polícia Civil, que tem como função essencial investigar e reprimir os crimes, está vivendo um total sucateamento. Sofre com a absoluta carência de recursos humanos”, disse.

Em fevereiro, o LIBERAL mostrou que o número de crimes violentos – homicídios, tentativas de homicídio, roubos, latrocínios e estupros – aumentou 47,7% em Americana, em 2016, na comparação com o ano anterior. Para especialistas, um dos fatores que justificariam a alta seria a fraca investigação policial. Após a reportagem, o Ministério Público cobrou que a Prefeitura de Americana e as forças de segurança da cidade apresentassem um plano.

Para a delegada, a Polícia Civil vive uma situação de “desmonte com um efetivo muito abaixo do mínimo razoável e, consequentemente, queda na qualidade da investigação e no atendimento a população”.

Reflexos

Na última semana, o LIBERAL apurou que a morte do aposentado Carlos Alberto Abreu, de 69 anos, no último dia 11, durante um assalto na região da Praia Azul, em Americana, deixou de ser investigada pelo 4º DP da cidade por falta de funcionários.

O distrito, que ficou de fora da unificação dos DPs quando foi criada a Central de Polícia, tem apenas um investigador. O crime, por determinação do delegado seccional, Paulo Tucci, teria sido encaminhado para investigação na DIG de Americana.

“A Polícia Civil está com seus quadros encolhidos e envelhecidos. Três por cento dos policiais no
Estado de São Paulo têm menos de 30 anos e 44% dos delegados tem mais de 50”, declarou Raquel. De acordo com a presidente do Sindesp, nas cidades do interior, delegados, investigadores e escrivães trabalham por quatro ou cinco policiais.

“O acúmulo de serviço sobrecarrega todos os policiais, obrigando-os a ficarem de sobreaviso ininterruptamente 24 horas por dia, o ano inteiro. Ou seja, não se permite que o policial civil tenha direito ao descanso”.

Atualmente, dos 645 municípios paulistas, 256 (40%) não têm delegados titulares. No interior, cada um deles responde por até quatro municípios ao mesmo tempo, segundo o Sindesp.

SSP rebate números e diz que Seccional tem mais policiais

A SSP (Secretaria Estadual da Segurança Pública) informou, por meio da assessoria de imprensa, que a Delegacia Seccional de Americana conta com 277 policiais civis, e não 127, como aponta o levantamento do Sindesp (Sindicato dos Delegados do Estado de São Paulo). “Vale lembrar que não há efetivo fixado para nenhuma cidade do Estado”, traz trecho da nota.

Foto: Divulgação
Para presidente do Sindesp, “radiografia” mostra sucateamento da Polícia Civil em São Paulo

A secretaria defendeu ainda que, desde 2011, foram contratados 3.688 policiais civis no Estado, sendo 68 para a região de Americana. De acordo com a pasta, 442 policiais civis estão em curso na Acadepol (Academia de Polícia) e serão distribuídos em breve para todo o Estado.

“O secretário Mágino Alves Barbosa Filho informa ainda que estão sendo realizados estudos junto à Secretaria de Planejamento para avaliar a evolução das receitas e assim definir o ritmo de novas contratações”, afirmou a secretaria.

O LIBERAL questionou a SSP se a falta de policiais compromete as investigações, mas a pasta ignorou o questionamento. Sobre a investigação da morte do aposentado Carlos Alberto Abreu, em Americana, a SSP afirmou que a informação de que a investigação foi encaminhada para a DIG (Delegacia de Investigações Gerais) não procede.