Ex-usuário de crack tenta nova vida em Americana

Anderson atribui recuperação a ajuda divina e diz que quer – e sabe que pode – deixar o mundo mais bonito


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Anderson morou na rua durante seis anos, em Americana. Dormia sobre papelão, revirava lixo, vivia alucinado. Só tinha a companhia de quatro vira-latas, que perambulavam com ele pelo São Vito. E apesar da altura – 1,78m – pesava 50 quilos.

Há um mês, ele voltou para a casa dos pais. Engordou 20 quilos. Cortou o cabelo, veste roupas limpas, frequenta uma igreja evangélica. E a reviravolta impressionante – que ele próprio atribui a uma ajuda divina – virou febre nas redes sociais.

A mãe dele, Cilmara Carvalho, contou a história do filho no Facebook e a postagem ganhou 30 mil curtidas e nove mil compartilhamentos. Um caso raro com final feliz.

Segundo um levantamento do Serviço Especializado de Abordagem Social da Prefeitura de Americana, havia em 2016 pelo menos 115 pessoas em condições de rua na cidade – metade delas se dizia usuária de droga.

Foto: Marcelo Rocha - O Liberal
De volta, Anderson não se separou dos companheiros de rua; na foto em destaque, o passado

JORNADA. Anderson Teixeira Correa Guimarães, de 25 anos, cresceu em lar humilde da Rua Chucri Zogbi, no bairro São Vito. O jovem, então com 19 anos, trabalhava como revisor de tecidos em uma tapeçaria da cidade.

Fazia supletivo à noite, concluía um curso de maquiagem e sonhava com carreira de sucesso. Mas na época, influenciado por “amigos do mundo”, ele experimentou o crack.

“A droga acabou com tudo o que eu tinha: trabalho, família, escola. Quando me vi, estava sujo, sem ninguém”.

Todos no bairro o conheciam. Ninguém se conformava em ver o rapaz boa praça de antes andando trôpego, dormindo nos cantos, rodeado de vira-latas. Os próprios vizinhos e amigos da tapeçaria volta e meia apareciam com marmitas.

O rapaz as dividia com os cachorros. O cabelo estava desgrenhado, o rosto chupado, as costelas aparecendo. “Se não me traziam comida, eu também não pedia. Ninguém era obrigado a sentir meu cheiro. Eu tinha vergonha”, lembra.

Foto: Marcelo Rocha - O Liberal
A mãe dele, Cilmara Carvalho, contou a história do filho no Facebook e a postagem ganhou 30 mil curtidas e nove mil compartilhamentos

RETORNO. Os pais o procuravam, pediam que voltasse para casa. Mas ele sempre se negou. Sabia que, em casa, furtaria objetos para trocá-los por pedras. Para sustentar o vício, pediu esmola no semáforo. “Tinha motorista que estendia a mão e me dava crack. É como se a droga estivesse por todo lado, me amarrando”, desabafou ao LIBERAL, na terça-feira.

Um dia, conta Anderson, algo diferente aconteceu. Ele tentou acender o cachimbo, mas sentiu nojo. Disse ter ouvido vozes, dizendo que o vício não exista mais. Para ele, era a divina providência.

“Caminhei até minha casa, encontrei minha mãe, disse que estava de volta. E todo mundo me recebeu de braços abertos, comemorando um milagre”, afirmou. Anderson diz não fumar mais, nem beber ou usar drogas. “Se sentir vontade, passa. Jesus é minha fortaleza”.

Os quatro vira-latas continuam com ele, inseparáveis. Anderson até sai para a rua, mas só atrás de emprego. Entra em cada porta, conversa em cada balcão. Quer voltar a ser trabalhador respeitado. Também anda pelos salões de beleza da cidade e se oferece para trabalhar como maquiador. Ele quer – e sabe que pode – deixar o mundo mais bonito.

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