Americanense veterano da 2ª Guerra celebra 100 anos de vida

Centenário não contém a emoção ao contar as experiências, com dificuldades na fala e num italiano carregado que o acompanhou por toda a vida


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Neste domingo, o americanense Nicola Fiore completa 100 anos. Ex-combatente na Segunda Guerra Mundial, pela Itália, o centenário teve a vida marcada por um dilema: seria um herói de guerra? Embora a família afirme que sim, ele nega. Isso porque quando o assunto vem à tona, as piores e mais dolorosas lembranças se sobressaem.

Nicola morava na Itália com a família quando, aos 21 anos, em 1939, foi forçado a se alistar pelo governo italiano. Ele tinha três opções: voltar para o Brasil, servir o exército ou ser preso. Teve que optar pela segunda.

A escolha, inevitavelmente, rendeu vivências sub-humanas. Ele combateu na Itália, na França e na Albânia, quase sempre posicionado na linha de frente. Viu grande parte dos amigos morrer em ataques e bombardeios. Foi feito prisioneiro por tropas nazistas da SS, forçado a trabalhar em uma mina de extração de carvão e teve os documentos e condecorações queimados.

Foto: João Carlos Nascimento - O Liberal
Nicola Fiore foi feito prisioneiro por tropas do regime nazista e conta nos dedos os amigos que perderam na segunda grande guerra

O centenário não contém a emoção ao contar as experiências, com dificuldades na fala e num italiano carregado que o acompanhou por toda a vida, mesmo após o retorno ao Brasil. Numera nos dedos os amigos que perdeu e chora as mortes que foi obrigado a provocar e nunca esqueceu.

“Ele não gostava de ter que matar, se sente culpado, se apresenta como ‘Nicola Fiore, assassino de guerra’, e eu digo que ele é um herói de guerra”, desabafa a filha caçula, Rosana Fiore Moreno, de 58 anos, com quem Nicola mora atualmente em Americana.

Rosana relata que as lembranças da guerra só começaram a serem contadas com detalhes há cerca de seis anos, mas sempre deixam o pai em estado de profunda emoção e tristeza.

“Às vezes, têm gente que fala ‘pode parar seu Nicola’, e ele diz ‘no, no, eu vou contar’. Ele pensa que as pessoas precisam saber. Quer contar para todo mundo como foi, que aquilo sim era uma vida difícil”. “Ele conta que emagreceu 30 quilos, que eles passavam muita fome, ele dormia no chão, se encheu de piolho, ficava dias sem tomar banho. É muita tristeza”, relata Rosana.

Foto: João Carlos Nascimento - O Liberal
Nicola morava na Itália com a família quando, aos 21 anos, em 1939, foi forçado a se alistar pelo governo italiano

ÁGUAS PASSADAS. Já com as lágrimas secas, o centenário é enfático quando questionado sobre a importância da guerra para a sua história. “Passou. Acque passate non muovono i mulini [águas passadas não movem moinhos]. Acabou a guerra”.

Nicola retornou ao Brasil em 1949, casado, buscando uma vida melhor para a família. Na cidade onde nasceu, ele e a esposa criaram os seis filhos, com o que o americanense ganhava trabalhando em tecelagens e também nos cinemas de rua, como Cine Brasil, Cine Cacique e Cine Comendador, onde foi porteiro e lanterninha.

Hoje, o centenário passa os dias vendo filmes, sua ocupação preferida, mas também gosta de festa, como faz questão de contar a filha mais nova, entre risos. “A gente faz churrasco e ele fica até 2h da manhã, dança e canta, brinca com os meus filhos e amigos”.

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