‘Subúrbio do centro’ quer voltar ao roteiro histórico e cultural de São Paulo

Ao decidir comprar um imóvel no bairro de Campos Elísios, no centro de São Paulo, saltaram aos olhos da curadora,…


Ao decidir comprar um imóvel no bairro de Campos Elísios, no centro de São Paulo, saltaram aos olhos da curadora, empresária e pesquisadora de cultura urbana Caru Albuquerque o baixo valor e o espaço dos apartamentos, além dos detalhes históricos esculpidos nos edifícios. Ela comprou e reformou um apartamento no Edifício Cícero Prado, na Avenida Rio Branco, ícone da arquitetura modernista.

Quando olhou com atenção ao redor, porém, Caru começou a sentir falta de serviços básicos: bares, restaurantes e farmácias. Para acessá-los, precisava recorrer a estabelecimentos de bairros vizinhos, como Santa Cecília. Também começou a perceber que amigos e parentes tinham medo de visitá-la, pela proximidade com a região da Cracolândia. Conversando com moradores do bairro, concluiu que as demandas dela eram as mesmas da vizinhança.

Caru aproveitou, então, sua experiência na área da cultura e da pesquisa urbana e criou no início deste ano um projeto para tentar incluir o bairro no roteiro histórico e cultural da cidade, com economia criativa e promoção de eventos culturais. Nasceu o Subcentro, um projeto cultural que busca chamar atenção de moradores, turistas e empresários da cultura para o Campos Elísios.

O projeto está mapeando ateliês, galerias, centros culturais, bares e restaurantes para articular a realização de eventos coletivos que estimulem a movimentação de pessoas no bairro. O evento de lançamento do projeto ocorre hoje na Praça Olavo Bilac, perto do Elevado Presidente João Goulart, o Minhocão.

Além da feira, roteiros históricos por casarões e equipamentos culturais do bairro estão sendo preparados. “O Campos Elísios é o subúrbio do centro, por isso o nome Subcentro. O nosso bairro tem mesmo características de interior. A verticalização em massa não atingiu o bairro, que tem muitos imóveis tombados”, explica Caru. “Queremos fazer um site com toda a programação dos eventos do bairro”.

Estigma. Octavio Pontedura, sócio-proprietário da Refúgios Urbanos – imobiliária com foco na história e na arquitetura – diz ter observado, de alguns meses para cá, um movimento, “ainda tímido”, de gente mais jovem passando a procurar apartamentos no bairro.

Segundo ele, são pessoas com idade entre 35 e 40 anos, solteiras ou casadas, e sem filhos. “Apartamentos nessa região são amplos e confortáveis. Quem escolhe um apartamento desses quer morar bem dentro da sua casa.”

Mas, de acordo com o empresário, imóveis no bairro ainda carregam um estigma de insegurança. “A primeira coisa que a pessoa pensa é na Cracolândia”.

Experiência internacional. Na opinião do arquiteto e urbanista Valter Caldana, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, é comum o movimento de jovens adultos de morar e desenvolver a economia criativa em áreas degradadas. Bairros de Nova York, Paris, Londres e Amsterdã já passaram por processo semelhante décadas atrás.

“Isso aconteceu em grandes cidades do mundo nas décadas de 1980 e 1990, que é esse retorno ao centro, a um modo de vida que não dependa tanto de deslocamentos, onde você muda o padrão de consumo”, explica o professor.

Ele diz ainda que iniciativas da comunidade, como o projeto Subcentro, são importantes para jogar luz a “uma São Paulo belíssima que não vemos mais, pois está encoberta pela poeira da metrópole”. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

Notícias sobre a região, Brasil e o mundo em um clique. Receba nossa newsletter