Sem larvicida, Ubatuba sofre com borrachudos

Entre os moradores, a rotina para diminuir as picadas envolve fechar a casa cedo, aplicar inseticidas e usar repelentes 24 horas por dia


“Lá você não consegue ficar 30 segundos sem repelente, a perna fica preta de borrachudos”. A declaração da comerciante Isabela Monteiro, de 27 anos, pode parecer exagerada, mas não é. Mesmo usando repelente e vestindo calça jeans, a reportagem saiu com dezenas de picadas de mosquito ao visitar duas cachoeiras do bairro Sertão da Quina, em Ubatuba, no litoral norte paulista.

Foto: Creative Commons
Picada de borrachudos geralmente deixa marcas mais aparentes no corpo

Segundo relatos, a quantidade de pernilongos e mosquitos na região aumentou neste ano, afetando também quem visita a praia Maranduba, a menos de 4 quilômetros das cachoeiras. A explicação, segundo a prefeitura, é a interrupção, em julho, no fornecimento do larvicida BTI pelo governo Geraldo Alckmin (PSDB). A substância costumava ser aplicada para combater a proliferação dos mosquitos, especialmente os da espécie Simuliidae, popularmente chamados de borrachudos.

Desde segunda-feira, em Maranduba, a estudante Isabella Rades, de 16 anos, ficou com as mãos e as pernas inchadas logo que chegou à praia. Segundo a mãe da adolescente, a professora de História Patrícia Rades, de 46 anos, que frequenta a região há 20 anos, os insetos são comuns, mas a quantidade aumentou visivelmente neste ano. “Tem até na beira da praia. Não percebia isso antes.”

Em frente ao calçadão de Maranduba, Josias Serra, de 54 anos, gerente de uma drogaria, conta que a procura por repelente aumentou neste ano. No local, oito marcas do produto ocupam o mesmo espaço que os protetores solares. Segundo as estimativas do gerente, o estoque de cerca de 140 unidades de seis marcas não vai durar até a virada de ano. Serra teme a perda de turistas. “A gente vive aqui só de turismo. Se a pessoa vem e precisa gastar trocentos vidros de repelente, ela não volta.”

Na região, o produto também é procurado por quem trabalha na praia, como o vendedor de picolés Rubens Nalia, de 65 anos, que usa duas embalagens por mês. Também vendedor de sorvetes, Antonio Carlos, de 62 anos, está com as pernas repletas de feridas de picadas.

Pela primeira vez em Maranduba, Maria Valentina, de 6 meses, tem marcas nas mãos, nas pernas e nos braços. “Nunca vi nada parecido, nem de perto, bateu recorde (a quantidade de borrachudos)”, diz o pai, o padeiro Cannan Pombo, de 23 anos.

Entre os moradores, a rotina para diminuir as picadas envolve fechar a casa cedo, aplicar inseticidas e usar repelentes 24 horas por dia.

Para a comerciante Isabela Monteiro, de 27 anos, a gota d’água foi há duas semanas, quando o filho Rafael, de 2 anos, se coçou sem parar, transformando as picadas em feridas. Isabela criou o abaixo-assinado online “Chega de Borrachudos”.

Solução

A prefeitura de Ubatuba afirmou que está em processo de compra do larvicida. “Estamos aguardando que os fornecedores retornem do recesso de fim de ano”, informou o município, que diz ter alertado o Estado. Outras duas prefeituras, de Caraguatatuba e Ilhabela, também não receberam o produto – a primeira vai comprar e a segunda já adquiriu.

Segundo o governo do Estado, o fornecimento de larvicidas é obrigatório apenas para vetores de doenças e a compra nos últimos anos ocorreu de forma “totalmente voluntária”. O Estado afirmou, no entanto, que vai adquirir o larvicida em caráter emergencial e distribui-lo às prefeituras em janeiro.

As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.

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