‘Não descartamos operação de guerra contra febre amarela’, diz Boulos

O coordenador de Controle de Doenças da Secretaria de Saúde de São Paulo, o infectologista Marcos Boulos, não descarta a…


O coordenador de Controle de Doenças da Secretaria de Saúde de São Paulo, o infectologista Marcos Boulos, não descarta a necessidade de se instalar uma “operação de guerra” e de se ampliar as áreas no Estado onde é recomendada a vacina contra a febre amarela. Desde abril de 2016, quando foi comprovada a morte de um paciente na região de São José do Rio Preto pela infecção, autoridades sanitárias passaram a acompanhar um aumento da morte de macacos – considerados como hospedeiros do vírus – um indicativo do recrudescimento da circulação da doença.

“Todo o Norte do Estado tem registro de mortes de animais”, disse. O receio é que o fenômeno passe a ser identificado também em matas mais próximas de Campinas ou da Serra da Cantareira, a pouca distância de áreas populosas onde a cobertura contra a doença é baixa. “Estamos fazendo a vigilância, acompanhando. Não vamos fazer nada por enquanto. A medida somente será tomada se comprovarmos mortes de macacos nessas regiões próximas de áreas populosas.” A seguir, trechos da entrevista:

Minas registrou um aumento de casos suspeitos de febre amarela nestes últimos dias. A notícia preocupa?

Liberal Motors – BC

Antes dos casos em Minas, tivemos dois casos registrados em São Paulo. Uma morte ocorrida em abril, em São José do Rio Preto e outra em dezembro, em Ribeirão Preto. Toda epidemia de febre amarela é antecedida por uma epizootia, que é o aumento de mortes entre macacos. Depois que detectamos em São Paulo a morte do paciente em São José do Rio Preto, aumentamos a vigilância. Percebemos um aumento de mortes desses animais. A parte norte inteirinha do Estado de São Paulo tem registro de casos de mortes de macacos, com suspeita de febre amarela. Alguns casos já foram confirmados.

O que foi feito diante disso?

A partir desses registros, aumentamos a vacinação do maior número de pessoas que possa estar em áreas considerados de maior risco. A morte de macacos é um bom indicativo de que há maior circulação do vírus na região.

Por que a febre amarela ocorre em ciclos, com epidemias de tempos em tempos?

Isso está ligado a mudança das populações suscetíveis. Quando há um aumento da circulação do vírus, parte dos macacos morre, parte tem contato com vírus, não tem a doença e desenvolve imunidade para futuras infecções. No caso de humanos ocorre o mesmo. Ou a pessoa tem contato com vírus e não desenvolve sintomas ou é vacinada. Passado um período, no entanto, há uma renovação da população. Nascem indivíduos que não tiveram contato com o vírus, outras passam a morar em áreas consideradas de risco para a doença e não são imunizadas. Novos macacos aparecem na área e o ciclo é retomado.

Por que aumentou de forma tão expressiva a área considerada de risco para a doença no Brasil? Hoje 3.530 municípios recomendam que a população seja vacinada.

Houve de fato uma “expansão” da doença pelo País. No passado, não havia casos de macacos ou homens com febre amarela abaixo do Estado de São Paulo. Isso mudou. Houve uma epidemia importante na região de Porto Alegre. A doença está se disseminando. Não se sabe ainda a razão. Há um maior trânsito de animais, há também o tráfico. Muitos primatas mantidos como animais de estimação, o que pode contribuir para o alastramento. Não sei se há uma explicação única. O fato é que a doença está se proliferando.

Isso muda a política de vacinação?

Eu brigava muito antes de tomar vacina sem uma base, porque a vacina também tem seus problemas, mas hoje não temos opção. A área considerada de risco tem de ser mantida e a recomendação de vacina, sustentada e monitorada.

A cobertura vacinal em Minas para febre amarela é de 50%. Qual é a de São Paulo?

Uma cobertura de 50% para febre amarela é baixa. Em São Paulo estamos próximos de 80%, o limite para considerar uma cobertura adequada. Nosso esforço é melhorar esse indicador. O receio é que esses macacos com o vírus cheguem a áreas consideradas muito próximas, por exemplo, de Campinas e São Paulo. Não podemos descartar a necessidade de se fazer uma operação de guerra.

Ampliar a indicação de vacina no Estado?

Entramos em contato com a Secretaria do Meio Ambiente, da Agricultura, estamos aqui monitorando os macacos do Estado. Verificando onde há mortes, onde há casos suspeitos de infecção. A partir desses dados, vamos definir se há necessidade de se aumentar a indicação da vacina, até onde tem que aumentar essa campanha. Porque se começa a aparecer na região da Cantareira, aí temos uns bons milhões de pessoas que não são vacinadas. A cobertura vacinal nessa área é muito baixa. Os macacos já chegaram na região de São João da Boa Vista, onde antes não havia. Estamos preocupados. Estamos monitorando.

E se a febre amarela chegar na área urbana, há risco de o Aedes aegypti também passar a transmitir a doença, de retomada da febre amarela urbana?

Pode até acontecer, não está descartado. Mas não acho. Ao que tudo indica, o Aedes aegypti perdeu a competência de transmitir a febre amarela em virtude de outros vírus: dengue, zika, chikungunya. No caso de São José do Rio Preto, por exemplo. O paciente morava em um local onde havia vários Aedes. Mas ele morava numa área próxima da mata, onde havia outros mosquitos transmissores. O nosso Aedes perdeu a competitividade, não sei se ele continua sendo um bom vetor para febre amarela, tendo mais um bom vetor. Essa é a nossa impressão. Estamos sempre de estar alertas a esse processo.

Há possibilidade de mudança nas áreas para recomendação de vacina a curto prazo em São Paulo?

Nenhuma medida será adotada sem que haja base para isso. Somente tomaremos essa medida caso haja casos de macacos mortos em regiões onde hoje não há recomendação para vacinação contra a doença. Por enquanto a ação é vigilância, monitoramento.