Médico relata trabalho com índios na floresta

No extremo noroeste do Estado do Amazonas, distante 850 quilômetros da Capital Manaus, fica o quase […]


No extremo noroeste do Estado do Amazonas, distante 850 quilômetros da Capital Manaus, fica o quase desconhecido município de São Gabriel da Cachoeira – um entre os poucos locais habitados por brancos, indígenas, brasileiros, nativos e estrangeiros de várias nacionalidades.

Banhada pelo Rio Negro, a cidade possui apenas 40 mil habitantes (90% indígenas), distribuídos num território maior do que os Estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo e Santa Catarina ou do que países como Portugal e Áustria. Acessível apenas por meio de barco ou avião, o lugar não chama atenção apenas pelo seu isolamento geográfico: economia, saúde, educação e desenvolvimento estão muito abaixo da média do restante do Brasil.

Exatamente pelas dificuldades encontradas no município, que faz fronteira com a Colômbia e Venezuela, o médico e professor da Unicamp, Ademar Yamanaka, compôs uma caravanas que foi ao local para realizar uma série de atendimentos médicos aos índios da região, numa ação social organizada e patrocinada pela Igreja Católica. Em conversa com o LIBERAL, ele relembrou a experiência que viveu no interior da Amazônia.

A equipe formada por 30 pessoas, entre médicos, dentistas e enfermeiros, passou 20 dias na região da “Cabeça de Cachorro” – referencia ao contorno do mapa na fronteira.

“A igreja montou um local, sob orientação de fisioterapeutas e médicos, para atender casos de crianças abandonadas pelos pais e pela comunidade”, contou Yamanaka. Segundo ele, os índios abandonam qualquer criança que tenham alguma anomalia ou deformidade física, por mais simples que sejam. Se nascem gêmeos, por exemplo, uma das crianças é abandonada à morte.

Logo na chegada, o médico encontrou algumas dificuldades. “A maior delas foi a comunicação e o desconhecimento dos costumes, porque os indígenas falam vários dialetos”.

São Gabriel da Cachoeira é a única cidade do Brasil que possui quatro idiomas oficiais: além do português, o nheengatu, o tucano e o baníua também são usados com frequência pela população. O município é marcado por contrapontos. Ainda se vive o costume de “trocas”, mas a cultura capitalista também aparece entre os nativos. Uma cesta básica, por exemplo, pode ser trocada por um barco cheio de cupuaçu, fruta típica da região. Ao mesmo tempo, a convivência com outras culturas trouxe problemas que, até então, não afetavam os índios. “A introdução do óleo para frituras, farinha e açúcar na dieta do indígena está trazendo obesidade e diabetes, doenças do ‘povo branco'”, contou Ademar Yamanaka.

A cidade possui uma infraestrutura básica quase rudimentar. “Toda a região é abastecida com gerador de energia elétrica comunitário ou privado”, citou.
O acampamento funcionava com o mínimo de equipamentos. “Para realizar os exames, levei um aparelho de ultrassom portátil. Dormíamos em redes, sob proteção do Exército, em cabanas de sapê”, recorda.